PARVOVIROSE: O maior inimigo dos cachorros (ou melhor, o maior inimigo dos donos que querem passear na rua os cachorros que acabaram de trazer para casa)

Todos os que já souberam o que é trazer para casa um pequeno cachorro, sabem bem o que custa quando o veterinário nos diz: “atenção que não o devem levar à rua antes de acabar o ciclo da primovacinação!”

Perante este aviso sério, a maior parte dos donos ficam assustados, mas sem saber bem porquê.

Acontece que, nós veterinários ao fazermos este aviso, estamos no fundo apenas a passar para o dono uma informação que pode salvar o cachorro de uma série de doenças letais, entre as quais esse “papão” chamado parvovirose.

Antes de passarmos à explicação de o que é a parvovirose é importante dar também o outro lado da questão.

Há quem defenda que os animais devem ser socializados o mais cedo possível, ou seja que colocar cachorros em contacto com outros cães e com o meio social envolvente o mais cedo possível é extraordinariamente positivo em termos de formação de “carácter” sendo um passo importante para termos cães afáveis e sobretudo sociáveis.

Para nós, é uma questão de ponderar os riscos com os benefícios, e fazê-lo é trazer para a baila um jogo de probabilidades associado à parvovirose, uma doença potencialmente fatal, com uma taxa de mortalidade de 30%, sendo mais elevada quanto mais novo for o cachorro  e extraordinariamente contagiosa.

A primovacinação deve ser feita de 4 em 4 semanas a partir das 6-8 semanas de idade (até às 16 semanas), e ao cachorro só lhe deve ser permitida a socialização cerca de 15 dias depois da segunda toma da vacina.

Tem havido grande evolução no grau de imunidade conferido pelos vários tipos de vacina, e aconselho que pergunte sempre ao seu veterinário quando é que deve começar a socialização do seu cachorro, e sobretudo que CUMPRA o que ele lhe disser.

A parvovirose é causada por um tipo de vírus, que, apropriadamente se chama Parvovírus canino. O Parvovírus é um vírus muitíssimo contagioso, que pode ser transmitido por via directa, de cão para cão, ou de forma indirecta por via fecal-oral (sabem aquela coisa que os cães não gostam nada de fazer: cheirar os rabos ou as fezes uns dos outros? É essa via mesmo…).

O vírus não só sobrevive facilmente em solos durante um longo período de tempo (podendo até ser transportado em solas de sapatos), como é muito resistente a variações meteorológicas, e existe em concentrações altíssimas nas fezes de cães infectados, tornando-se portanto muito fácil de espalhar.

A doença pode-se apresentar de duas formas. A mais comum é a manifestação intestinal, ou seja diarreias muita intensas (com sangue), falta de apetite e vómitos. O vírus afecta de forma muito severa a capacidade de os animais absorverem nutrientes. Estes rapidamente ficam desidratados e com défice proteico (não só por causa da severidade dos sintomas, mas também por causa da tenra idade que a maior parte dos animais que contraem a doença têm).

A outra forma, muito menos comum é a forma cardíaca, em que o vírus ataca o músculo cardíaco e que normalmente surge em cachorros muito jovens.

Como já dissemos, a maioria dos casos aparecem em cachorros com idades entre as 6 semanas e os 6 meses de idade, e a doença apresenta taxas de mortalidade bastante elevadas- cerca de 30%. Os hábitos de vacinação instituídos reduziram brutalmente a prevalência da parvovirose canina.

No entanto, o cumprimento incorrecto de programas vacinais adequados e a exposição dos cachorros a perigos quando essa vacinação ainda não confere a suficiente imunidade, podem muitas vezes tornar muito real o perigo de ver o seu cachorro internado a soro no veterinário com o rótulo “prognóstico reservado”.

De facto, o tratamento previsto torna o prognóstico normalmente reservado, pois tratando-se de uma infecção viral, o tratamento é sintomático, ou seja tentamos controlar a desidratação, fazendo com que esta não seja demasiado severa, que o défice proteico não faça com que vários sistemas vitais entrem em falha e tentamos contrariar a tendência para septicémia (infecção generalizada, o que é muito perigoso em cachorros de tenra idade.

Esperamos que depois deste texto pense duas vezes antes de querer levar o seu cachorro de poucas semanas à rua, ou a brincar com outros cães.

Bruno Farinha-DVM

Bruno Farinha -DVM

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5 pensamentos sobre “PARVOVIROSE: O maior inimigo dos cachorros (ou melhor, o maior inimigo dos donos que querem passear na rua os cachorros que acabaram de trazer para casa)

  1. Caro Dr Bruno, tem noção que a socialização do cachorro pode e deve ser feita até aos 5/6 meses de idade? Além disso a mesma socialização pode ser feita em ambiente controlado e com cachorros em perfeito estado de saúde. Cães com vários problemas de comportamento por falta de socialização, a maioria deles por agressividade e que por vezes acabam com a eutanásia ultrapassam largamente os 30% da taxa de mortalidade, não defendo com isto o livre contacto com todos os cães e em qualquer ambiente, defendo sim a sensibilização para a necessidade de vacinar os cachorros na devida altura de forma a não comprometer nem a saúde do cachorros nem o comportamento do mesmo quando este se tornar adolescente e adulto.

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    • Bom dia João Pedro, e muito obrigado pelos seus comentários, e desde já peço desculpa por não ter sido possível responder mais cedo. Acredito igualmente na enorme importância da socialização dos cachorros. Não acho de forma nenhuma que deva ser desvalorizada essa questão, acho é que deve ser, lá está uma decisão informada. Aulas de socialização com cachorros vacinados, com o primeiro reforço e em ambiente controlado? Absolutamente de acordo. Passear um cachorro de 8 semanas, apenas com a primeira toma da vacina, pela trela na rua, ou num parque com outros cães desconhecidos? Desaconselho profundamente (o tal jogo das probabilidades). Felizmente a própria indústria farmacêutica tem vindo a evoluir e já existem algumas vacinas que conferem uma imunidade pelo menos temporária logo no primeiro reforço. Aquilo que quis transmitir aqui neste post foi os perigos sérios da parvovirose, e de tomar decisões sem saber o que está em causa. Apenas tendo donos informados podemos esperar ter decisões informadas da parte deles. Teremos o maior gosto em discutir consigo a possibilidade de fazermos um artigo sobre a importância da socialização no comportamento canino, até porque já estamos a começar a trabalhar nesse artigo. Se a página de facebook que referiu for a da sua empresa, terei o maior gosto em enviar-lhe uma mensagem privada, para falarmos sobre o assunto. Muito obrigado, mais uma vez pelo seu comentári

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